Escrito no século XIX e contando uma história daquela época, o livro “Ilusões Perdidas” (tradução e adaptação de Silvana Saferno; Companhia das Letras, 223 páginas), do escritor francês Honoré de Balzac, aborda aspectos relevantes sobre o início do jornalismo na França. Balzac sugere que o jornalismo é um meio no qual reinam a corrupção, a mentira, a falsidade e as armações dos profissionais para acabar com a reputação de uma pessoa ou uma obra. A argumentação de Balzac remete-se, em parte, á contemporaneidade, mas seu livro traz afirmações incômodas que requerem uma análise mais elaborada no estudo tanto das características da obra em questão, quanto da história do jornalismo. De fato, o título do livro é fiel ao seu conteúdo, já que a obra narra a história de um jovem poeta que, buscando alcançar seu sonho de tornar-se conhecido como literato, embarca para Paris, mas ao chegar na “cidade da luz” e se deparar com extremas dificuldades, acaba se deixando corromper pelo ramo jornalístico, visto como uma rede de mentiras, corrupção e falcatruas, no qual existe a competição desleal e a inveja entre os profissionais. Assim, Balzac recorre a estilos de retórica para tentar convencer o leitor do meio “sem escrúpulos” da atividade jornalística, dando a entender que o jornalismo seria uma prática depreciativa e mesquinha, já que ele relata no livro o jornalista como um “acrobata” que pode tanto tecer uma crítica a fim de destruir a imagem de uma pessoa ou uma obra, como o mesmo jornalista pode depois elogiar e tecer belíssimos comentários à mesma obra ou pessoa. Decerto, o livro de Balzac é atemporal, já que no mundo contemporâneo ainda é encontrada a prática jornalística de maneira similar àquela retradada em “Ilusões Perdidas”, mas talvez o autor tenha pecado ao generalizar esse tipo de comportamento e ao sugerir que a prática jornalística seria somente depreciativa e insalubre, já que tanto no século XIX como na contemporaneidade, o jornalismo servia e ainda serve também para dar informações à sociedade de forma o mais imparcial possível. Sendo assim, há considerações pertinentes em “Ilusões Perdidas” que fazem da obra objetiva e interessante, mas talvez tenha faltado a Balzac uma análise mais profunda e crítica nas raízes do jornalismo nascente, sobretudo o francês, para que, dessa forma, os aspectos apresentados não fossem somente os depreciativos, mas também os pontos positivos da prática jornalística que é, sem dúvida, de fundamental importância para a sociedade.
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